- Estás a prestar atenção, Jorge?
sentava-me ao lado dele, no sofá, e ele contava-me histórias de África. Só alguns anos mais tarde percebi o que ele dizia, quando vi na televisão uma girafa a andar na savana. Sempre gostei muito dos programas de animais. E de facto pareciam as pernas das girafas, os teus dedos. Compridos, elegantes, de movimentos lentos e calculados, os teus dedos no meu ombro
- Desculpe, este lugar está ocupado?
os teus dedos a colocar a tua pequena mala de viagem no compartimento superior, no comboio das seis e meia. Nunca gostei muito da tua voz
- Desculpe lá a maçada.
demasiado aguda, principalmente quando dizias frases compridas, dolorosamente compridas e dolorosamente agudas
- Parece impossível o atraso destes comboios, e é principalmente quando uma pessoa tem compromissos e não se pode atrasar que nos acontecem estas coisas, não é verdade?
os teus dedos, que pareciam as pernas das girafas das histórias que o meu avô me contava
- Chamo-me Sílvia, muito prazer.
a apertar-me a mão
- Também sou de Lisboa.
a ajeitar o cabelo.
Nunca fui muito conversador, custa-me muito fazer conversa, sempre detestei falar quando muita gente está a olhar para mim. Ainda me lembro o que me custou dizer ao padre
- Aceito
e ver toda aquela gente que mal conheço ou não conheço a sorrir ou a chorar
(nunca compreendi as pessoas que choram em casamentos)
e ouvir em seguida a tua voz penosamente aguda
- Aceito
Lembro de andarmos de mãos dadas junto à praia, na nossa lua de mel, de noite, tu com a tua voz
- Devias falar mais, Jorge. Estás sempre tão calado.
e eu a olhar para os teus dedos, compridos, elegantes, que faziam mesmo lembrar
palavra de honra
as pernas das girafas das histórias que o meu avô me contava.
Lembro-me de como a aliança ficava mal neles. Demasiado brilhante. É claro que nunca te disse isso
(não sou completamente estúpido)
apenas ficava a olhar para eles, e sorria. Mesmo quando a tua voz doentiamente aguda
- Falamos tão pouco, Jorge. Que se passa?
e os teus dedos na minha perna, compridos, elegantes
- Estás a prestar atenção, Jorge?
Nunca fui muito atento. Não reparei, por exemplo, quando naquela festa, fizeste festas no cabelo daquele teu amigo
(Roberto? Ricardo?)
e mesmo quando, alguns meses depois, me pegaste na mão
- Jorge, isto não pode continuar.
os teus dedos nas minhas mãos
- Jorge, eu e o Rui
(nem Roberto nem Ricardo)
- Jorge, eu e o Rui gostamos muito um do outro.
os teus dedos no meu queixo
- Estás a prestar atenção, Jorge?
quando ficavas nervosa, apertavas os dedos de uma mão com os da outra
- Estás a prestar atenção, Jorge?
Nunca fui muito atento. Não reparei, por exemplo, que quando viraste a maçaneta com os teus dedos
as pernas das girafas das histórias do meu avô
levavas na mão uma mala
(bem maior que aquela que colocaste no compartimento superior)
e que, quando saías, não disseste
- Desculpe lá a maçada.
mas sim
- Adeus, Jorge.
com uma lágrima no olho, parecida com a que tinhas quando disseste, com a tua voz irritantemente aguda
- Aceito
(nunca compreendi as pessoas que choram em casamentos)
Já passaram alguns meses. Já assinei os papéis do divórcio, já soube da notícia do teu casamento com o Rui
(nem Roberto nem Ricardo)
Não fiquei irritado. A sério que não fiquei irritado.
palavra de honra
Tenho é saudades dos teus dedos, compridos, elegantes, de movimentos lentos e calculados. Às vezes vejo o programa dos animais, à espera de ver as girafas das histórias do meu avô. Mas só apanho crocodilos atrás de gnus e leoas atrás de gazelas e às vezes
palavra de honra
até choro
(nunca compreendi por quê)
quando o crocodilo ou a leoa conseguem agarrar o gnu ou a gazela
(respectivamente).
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