Friday, June 16, 2006

Epitáfio de sonho inacabado


Estás acordada?

Estou.

Sabes quando num momento não tens a certeza se estás acordada ou se estás a dormir?

Como assim?

Às vezes estás meio acordada meio a dormir. Nunca te aconteceu?

Ah, já sei.

E não tens a certeza se estás acordada ou se estás a dormir.

Sim.

Sabes?

Sei.

Eu acho que estou num deles.

Num que?

Num desses momentos.

Como assim?

Não tenho a certeza se estou acordado ou se estou a dormir.

Que estupidez, é claro que estás acordado.

Por quê?

Então, se eu estou aqui.

Podes estar no meu sonho.

Por que haveria eu de estar no teu sonho?

Por que não?

Sonhas comigo?

Às vezes.

E como são os sonhos em que eu apareço?

Depende do sonho.

E como está a ser este? O que estou a fazer?

Então, não vês que estás exactamente a ter esta conversa comigo?

O quê?

Se estiver a sonhar agora, isto que se está a passar aqui é o meu sonho.

Não é lá um sonho muito divertido.

Se for um sonho.

Quando acordares, não mo venhas contar.

Se estiver a dormir.

Então agora já achas que estás acordado?

Não, não sei se estou acordado ou se estou a dormir.

Mas por que é que não sabes?

Sinto-me como se estivesse quase a acordar.




M. faleceu durante o sono. A viúva L., que dormia a seu lado, nada ouviu.


Foi assim o seu último sonho.

Wednesday, June 07, 2006

cat-like equilibrioception


















Ponho e Retiro. Peso. Adiciono e Subtraio. Racionalizo. Em cada prato está um veneno. Semelhante em natureza, antídoto do oposto. O meu cuidado é manter o Equilíbrio. Entre estes dois venenos, o peso de um aumentar acarreta uma mudança de estar. Uma mudança de vida, digamos. Mas como este equilíbrio é precário e dinâmico, a minha vida é constante mudança. Não Avanço. Mudança. Por vezes adiciono mais Pratos, na esperança que algo se equilibre, ou que sinta simplesmente um pender completo para um lado novo. Para o Avanço. Nada que me leve ao Passado, onde os Pratos não passavam de mera ficção. Não Científica.

Sometimes I feel so happy,
Sometimes I feel so sad.
Sometimes I feel so happy,
But mostly you just make me mad.
Baby, you just make me mad.
Linger on, your pale blue eyes.
Linger on, your pale blue eyes.
Velvet Underground – Pale Blue Eyes

Friday, May 26, 2006

berro cósmico

Galof: Sabes aquelas sensações estranhas que cada e todos nós já experimentámos?
*silêncio*
Folag: Como assim?
Galof: Outro dia lembrei-me. De como era, sentires-te fora de ti próprio. Não acreditares que eras tu, compreendes? *pausa. espera por um aceno de cabeça que não vem.* Veres tudo à tua volta a funcionar a uma velocidade diferente e muito baralhado. Como quando por exemplo beijas pela primeira vez uma outra pessoa. Ou quando recebes uma notícia inesperada sobre qualquer coisa que vai afectar a tua vida.
*Folag suspira*
Folag: Já foi há tanto tempo, que já me esqueci.
*Galof continua indiferente à interrupção*
Galof: Também, senti na pele, a experiência de uma manipulação das minhas emoções. Ser avassalado pela genialidade de uma música, pela grandeza de uma personalidade, pela catástrofe alheia. Mais do que os arrepios, os pêlos eriçados, o coração a galopar e a temperatura a escalar, há como se que uma explosão no cérebro. *Folag revira os olhos* De repente sinto-me maior, parte de algo, mas também ao contrário...compreendes? Sinto como se tivesse guardado um mundo cá dentro e eu estivesse um passo mais perto de ficar no mundo lá fora.
*Folag segue com os olhos alguém que vai a passar*
Folag: Não há nada como nos sentirmos verdadeiramente vivos.

Only one is a wanderer. Two together are always going somewhere.
from Vertigo

Thursday, May 18, 2006

rápido














Só eu. Já me viste por aí. A andar sozinho de cabeça baixa e passo rápido. Headphones postos. Headphones não postos. Sem expressão. De vez em quando solta-se um sorriso. Sem razão aparente. Desaparece rápido. A andar sozinho de cabeça baixa e passo rápido. De casaco e mochila. De tee shirt e saco de viagem. A bater os dedos ao som de uma música qualquer. Com as mãos nos bolsos. A andar sozinho de cabeça baixa e passo rápido. A mexer no cabelo. A mexer na cara. Com os braços ao longo do corpo. Com olhar contemplativo. Com olhar perdido no vazio. Parado a olhar para cima. A andar sozinho de cabeça baixa e passo rápido.

só me agrada ser quem quero
longe de uma falsa situação

Saturday, May 13, 2006

Xx + xY = Problema

Xx: Pessoas são feitas de: Órgãos. Tecidos. Células. Moléculas. Átomos.
xY: Então pessoas = átomos.
Xx: Não. Pessoas não são átomos. Átomos são pessoas.
xY: Não percebo.
Xx: Nem eu.
xY: Porque começámos?
Xx: Não sei.

Tuesday, April 25, 2006

Ritmo da Liberdade























Toda a música que ouço.
O coro de vozes, o estremecer de pés.
Todas as emoções. Batem em mim.
Batem como o vento no mar.
Causam ondas.
Ondas não duram mais que a sua chegada à praia.

Tenho a minha vida cortada em dois.
Por pessoas. Por músicas. Por cidades.
Despedaçada em mil pedaços.
E no entanto sinto-me feliz.
Feliz a explodir. Feliz como uma criança.
Porque não? Porque não sentir um paradoxo e tomá-lo num sorriso que é o teu?

Sinto este corpo a arder.
O meu. Sei que ele arde por mais que uma razão.
Por tudo o que veio antes dele. Por tudo o que ele é agora.
E. Por tudo o que ele será.

Por tudo o que és e não deixas de ser. Sê tu mesmo. Sê ninguém.

Monday, April 24, 2006

Caminhos Escondidos

















Posto acima do mundo.
Vejo o caminho antigo.
O caminho escondido.
Cheiros sempre foram
mais que importantes.
Neste caminho escondido.
Toda a minha vida andei.
Nesta escuridão escondida.
Agora é coberta.
Por uma tapeçaria mais que verde quase amarela.
Liberto-me agora do caminho.
Escondido. Diferente. Igual.

Compreendes?



Everyone wants to live forever
Thinkin' that it'd be a lot better
Everyone wants to live forever
whoah
The Flaming Lips - Talkin' Bout the Smiling Deathporn Immortality Blues

Sunday, April 23, 2006

Leão de Domingo

No fundo
sempre soube
que ele voltaria a aparecer.
O Rugido.
Alter-ego semi-permanente.

Já sabes como eu sou,
grande eu, pequeno eu.
Nunca médio eu.
Adoro as montanhas e os vales,
nunca gostei muito de planaltos.
Se for tem que ser em grande.
És tu que me transmites
esta megalomania.

E mesmo amando esta estúpida dimensão,
nunca gostei muito da grandeza
dos sentimentos mesquinhos, por tua causa.
Não me deixo consumir.
Tento resolver os meus problemas.
Como já me avisaste mais que uma vez.
E estamos ligados,
agora e para sempre.
Neste constante devir que é a vida.

Transforma-me amor da grandeza,
e,
Ruge para mim,
eu-mesmo.

Friday, April 21, 2006

Cenário


Sou eu sentado no sofá, a luz apagada

[olha para a luz]

a luz apagada, a porta fechada ou aberta

[olha para a porta]

a porta fechada ou aberta, não faz diferença, está escuro e não consigo ver bem a porta.

Sou eu sentado no sofá, a luz apagada, a porta fechada ou aberta, não faz diferença.

[pausa]

Na minha frente a mesa pequena onde se colocam revistas, jornais, pedacinhos de queijo e bolachas para quando tenho visitas, o comando da televisão e os pés, quando vejo televisão. Agora está lá o portátil aberto, e a luz do portátil na minha cara.

[pausa]

Atrás da mesa pequena com o portátil aberto e o comando da televisão, a televisão desligada.

[pausa]

Desligada não, em Stand By, essa forma meio-desligada de se estar.

[pausa]

A luzinha vermelha

[olha para a luzinha vermelha]

a luzinha vermelha no canto inferior direito como que a dizer

- Ainda estou aqui

[pausa maior]

Sou eu sentado no sofá, a luz apagada, a televisão em Stand By e o portátil aberto. Estou a ver as tuas fotos. Tu com o teu casaco amarelo

- Pareces um canário

e tu amuada

- Mas eu adoro canários, parva

e tu a perdoar-me o ser bimbo e a dar-me um beijo

- Canário és tu

[pausa maior]

Lembras desse dia? Nós os dois no centro comercial a comprar pilhas para a máquina digital que me deste no natal

- Para tirarmos fotos juntos

[pausa, olha para a luzinha vermelha]

Nós os dois na zona de alimentação do centro comercial, eu um café com leite e uma torrada com manteiga, tu um pastel de nata e um compal de laranja

[pausa]

ou de pêssego

[pausa]

Eu a tirar-te fotos e tu a rir

- Pára com isso

eu a tirar-te fotos e tu a fazeres-te de irritada

- Deixa-me comer em paz

eu a tirar-te fotos e tu

- Devo estar horrorosa, depois apagas essas fotos

eu a tirar-te fotos e tu

- Prometes?

[pausa]

Não apaguei as fotos. Quando cheguei a casa, nesse dia, fui logo passar as fotos para o portátil e colocá-las na pasta As Minhas Imagens.

[pausa]

Só agora é que reparo nisto, na pasta As Minhas Imagens não há nenhuma imagem minha, só imagens tuas.

[pausa maior, olha para a luzinha vermelha]

Sou eu sentado no sofá, a luz apagada, a televisão em Stand By e o portátil aberto com o teu casaco amarelo e o teu compal de laranja

[pausa]

acho mesmo que era de laranja

[pausa]

Selecciono todas as tuas imagens

(não são assim tantas)

para depois carregar na tecla Delete

[olha para a tecla Delete]

certo de que assim sairias mais rápido daqui

[pausa]

certo de que sairias mais rápido de mim

[pausa maior]

Sou eu sentado no sofá, a luz apagada, a televisão em Stand By e o portátil aberto com a tecla Delete a olhar para mim

[olha para a tecla Delete]

e eu a não conseguir carregar nela.

[pausa]

Ligo a televisão

[carrega no botão verde no canto superior direito do comando da televisão]

e, atrás do portátil aberto, vejo os canais a mudarem sem conseguir perceber o que está em cada um

[carrega no botão + PROG]

a sala a ficar alternadamente clara e escura e, no portátil aberto, ainda o teu casaco amarelo e tu a fazeres-te de irritada, a olhar para mim

- Devo estar horrorosa, depois apagas essas fotos

a sala alternadamente clara e escura

- Prometes?

[pausa maior]

Desligo a televisão

[carrega no botão verde no canto superior direito do comando da televisão]

e de novo a sala escura, só a luz fraca do portátil aberto e de novo a luzinha vermelha como que a dizer

- Ainda estou aqui

[pausa]

Sou eu sentado no sofá, a luz apagada, a televisão em Stand By, as tuas fotos todas seleccionadas

(não são assim tantas)

e a tecla Delete a olhar para mim

[olha para a tecla Delete]

tão pequena

[olha para a luzinha vermelha]

tão insignificante

[pausa]

e o meu indicador

[olha para o indicador]

tão pequeno

[olha para a luzinha vermelha]

tão insignificante

[olha para o indicador em cima da tecla Delete]

a carregar na tecla Delete

[carrega na tecla Delete]

[pausa maior]

É o sofá vazio, a luz apagada, a televisão em Stand By, a luzinha vermelha no canto inferior direito como que a dizer

- Ainda estou aqui

o portátil aberto, o teu casaco amarelo, o compal de laranja e o teu ar irritado

- Prometes?

Saturday, April 08, 2006

Podes abrir...


Heaven’s gonna burn your eyes
thievery corporation

os primeiros raios de sol entre a tempestade
são sempre os mais saborosos.
o calor refrescante atinge-te as folhas
cobertas de água escorregadia.
e enquanto isso se passa, podes sentir
o final da tempestade a penetrar a terra,

e continuas a jornada de crescer.
sempre. até atingir o céu.
e ele te queimar os olhos fechados.

Podes abrir...

Thursday, April 06, 2006

rain?


Deflagra-se uma guerra orgânica dentro de mim.
Sabendo à partida o vencedor e o vencido,
os invasores continuam a tentar.
É inevitável.
Como a chuva que cai lá fora,
a luta pela vida inconsciente e desesperada
destes pequenos seres é parte de um ciclo.
Coexistência. Competição.
Vida. Morte.
Todos fazemos parte dum ciclo.
Fases.
Tal como a fénix
que se consome num fogo purificador e rejuvenescedor,
assim o meu corpo debate-se com um inferno auto-imposto.
Pronto para o renascer debaixo do sol...


All I do is pray the lord above will let me walk in the sun once more.
Can’t go on, ev’rything I had is gone
Stormy Weather, Billie Holiday

Sunday, April 02, 2006

sem (t)alento


Escrevo em verso
mas não é poesia.
Tento a prosa,
mas não é verosímil.

O meu escrever
esbate-se
em barreiras impostas
por outros
vindos antes de mim.

Deram-me inspiração
e começaram eles mesmos
a instigar esta vontade,
mas nunca me avisaram
desta ridícula dificuldade.

Escrevo mas não sou eu.
Sou eu mas não escrevo.
Penso quebrar regras,
mas apenas volto
para uma prisão maior.

آب از سر چشمه گل آلوده - Water is muddy at the fountainhead

Wednesday, March 29, 2006

No Time


No time for sadness.
No time for loneliness.
If all I can do
is this.
I'll do it anyway.

No time to look back.
No time for regrets.
I will be who I am,
learning of myself along the way.

No time to despair.
No time to run.
I'm busting through
the challenges ahead.

No time to lose!

"You already possess everything necessary to become great." Provérbio Crow

Tuesday, March 28, 2006

Trigger Happy



Basta um click.
Carrega no gatilho,
e observa a explosão.
Esta pessoa
a transformar-se
numa besta.
Sou como um revólver
em roleta russa.
Tens um 1/6 de hipóteses,
de eu te explodir a cabeça.

Sunday, March 26, 2006

Perdidos


Onde andam agora
aquelas pessoas
que me disseram:
"És essencial para a minha vida!"
Desapareceram,
juntamente
com a areia e o pó.
No fundo,
as pessoas que ficam
são aquelas que não dizem
"Vou ficar."
Mas aquelas que simplesmente
ficam.

Friday, March 24, 2006

Para a eternidade


Não vivo.
Há muito que tudo me deixou
Os pulmões e o coração
pararam.
Nas minhas veias,
corre somente
o sangue de outrém.
Foi me arrancada a alma...
Naquele momento...
Em que acordei pela primeira vez.
À noite...
Sobressalto, medo, euforia.
Vermelho a correr.
Todo o meu mundo era vermelho.
Ainda o é.

Desde que segui
os gigantes cinzentos
por serranias,
campos e águas.
Ao lado dos meus companheiros
para trazer o demónio do aço
e a foice da morte
à cidade dourada dos caminhos.
Desde esse momento
que a minha alma foi condenada.
Desde o primeiro derramar de sangue,
da primeira fúria cega e sanguinária
que a minha monstruosidade
despertou.

Agora não vivo.
Esta existência
predadora, desprovida
de sentimentos e humanidade.
Um degenerado
que os meus antepassados
condenaram.
Um monstro
que os meus mortos filhos
temeram.
Constantemente predador
de vidas, esperanças e almas.
Camaleão de tempos e eras,
vivendo apenas nas sombras.
Na solidão das sombras.

Presenciar a inexorável
passagem do tempo,
sem confiança. Sem apoios.
Não viver preso a uma liberdade
que passeia lado a lado
com o Negro Espectro.
Esperar...



Pleased to meet you
Hope you guess my name
But what's puzzling you
Is the nature of my game
Rolling Stones - Sympathy for the Devil

Homem


Questões assombrosas
emergem na minha mente.
Quero esquecê-las.
Viver uma vida
não deveria ter
esta dificuldade.
Acordar não devia ser árduo.
Sonhar não devia ser penoso.
Sentir devia ser fácil.
Questões de certo e errado,
nem sequer deviam ser questões.
Viver não devia ser exaustivo.
Não era tão exaustivo.
A busca da verdade,
do conhecimento,
e de esclarecimento
não devia ser a mais díficil.

Foi tudo complicado,
por nós próprios.
As respostas
supostamente
estavam ao alcance
da mão e do olhar.
Os sentimentos
bons e maus
gerados
só vieram complicar.
A vida devia ser fácil.
Fácil como o instinto.

Instantes antes


Não pensar em ti
Não pensar em ti

Apagar a luz

Luz apagada

Não vou pensar em ti
Não vou cair na estupidez
(sim, na estupidez)

de pensar em ti

Fechar os olhos

(quando os fechar
não será o teu rosto
os teus cabelos
o teu sorriso)

Não quero pensar em ti
Não posso pensar em ti
Faz-me mal pensar em ti
no teu rosto
nos teus cabelos
no teu sorriso

Fechar os olhos
(Fechar os olhos!)

Olhos fechados


E não penso senão em ti

Thursday, March 23, 2006

Refúgio


Exausto.
Vamos fugir?

Monday, March 20, 2006

Vem ver-me, se quiseres


Por várias vezes pensei em visitar-te. Mas sabes como é, o trabalho, os horários, nem sempre é fácil. Deves lembrar-te de como tinha pouco tempo. Só nos víamos de noite, ao jantar, e de manhã, antes de sair. Lembro-me da tua camisola cor de laranja

- Até logo

enquanto acabavas de comer o teu pão com manteiga. Sempre gostei de tomar o pequeno-almoço contigo. Ia comprar pão do dia e o jornal

dois papos-secos, quarenta escudos; jornal, noventa e cinco escudos; total de cento e trinta e cinco escudos

e tu ficavas a fazer a cama. Depois comíamos e resolvíamos juntos o jogo das diferenças que vinha na penúltima página do jornal. Um desenho qualquer, geralmente estúpido, do lado de outro, igualmente estúpido. Eras mais rápida do que eu. E mais atenta. Eu só encontrava os mais básicos, os mais gritantes

- Aquele tem um guarda-chuva enquanto que aquele não tem

Acho mesmo que já tinhas encontrado essas diferenças mas que não as dizias, que as deixavas para mim, para que ao menos pudesse encontrar algumas

e gostava tanto de ti por isso.

É claro que logo a seguir

- Olha, Afonso, aquele tem a biqueira do sapato preta enquanto que aquele tem a biqueira do sapato cinzenta

quando eu nem sequer tinha reparado que o senhor estava calçado. Eram sempre sete as diferenças

Encontre as sete diferenças entre as seguintes imagens

penúltima página do jornal, noventa e cinco escudos

e raramente as descobríamos

(as descobrias)

todas. Faltava sempre alguma, algum miserável detalhe, alguma minhoquice insignificante que, mesmo para ti, era difícil encontrar.

Ia para o trabalho, num daqueles fatos cinzentos, velhos, que me ficavam enormes, e tu

- Até logo

na tua camisola cor de laranja, com o resto do pão de manteiga numa mão e o jornal aberto na penúltima página na outra. E telefonavas-me às vezes no meio do dia

- Encontrei a última diferença, Afonso. Aquele prédio, ao fundo, tinha oito janelas enquanto que o outro tinha seis. Lembras das janelas, Afonso?

e eu que nem tinha reparado no prédio

- Lembro

e tu contavas-me como foi difícil descobrir e como passaste de detalhe em detalhe, antes de ir tu também para o trabalho, e dizias

- Até logo, espero-te para o jantar

e gostava tanto de ti por isso.

Por várias vezes pensei em visitar-te. Mas sabes como é, o trabalho, os horários, nem sempre é fácil. Cheguei mesmo a comprar chocolates

chocolates, mil e duzentos escudos

daqueles que tu gostas, sem nada por dentro

- Sem mariquices

como tu dizias, só chocolate. Entrei no autocarro com os chocolates e o jornal

chocolates, mil e duzentos escudos; bilhete de autocarro, cento e vinte escudos; jornal, noventa e cinco escudos; total de mil quatrocentos e quinze escudos

e planeava fazer-te uma surpresa. Imaginava que ias ficar admirada por ter deixado crescer a barba. Pensava que talvez nos pudéssemos cumprimentar, beber um café e resolver juntos o jogo das diferenças da penúltima página do jornal. É claro que me deixarias algumas diferenças estúpidas

- Olha, Rita, aquele cão é branco enquanto que aquele é branco com pintinhas pretas

e ia gostar tanto de ti por isso.

Sei que logo em seguida

- Tens razão, Afonso, e olha, ali ao canto, no céu, neste são sete pássaro enquanto que naquele são oito

e eu ainda perdido à procura de diferenças na roupa do caçador. Mas isso não importaria nada. E acho

(não sei porque)

que íamos

(que ias)

conseguir encontrar as sete diferenças. Mesmo as mais insignificantes, as mais ridículas.

Mas acabei por não chegar à tua casa, saí do autocarro algumas paragens antes e voltei a pé para casa. Acho que tive medo

não, não foi medo

(medo é o que tenho de cães grandes e de cobras)

foi antes um receio de que não vivesses mais lá, de que outra pessoa

(um homem)

abrisse a porta, ou então de que te tivesses esquecido de mim. Sei que é estúpido

(é claro que não te esqueceste de mim)

mas imaginei-te mesmo a tentar, com esforço, recordar-te de quem eu sou

(de quem eu era)

e não me apetecia mesmo nada

- Sou o Afonso, não te lembras? Costumávamos resolver o jogo das diferenças da penúltima página do jornal enquanto comíamos pão com manteiga

Não sei se me percebes, mas tinha medo

(medo não, receio)

de que olhasses para mim

- Este tem barba enquanto que aquele não tinha

Por várias vezes pensei em visitar-te. Mas sabes como é, o trabalho, os horários, nem sempre é fácil. Quem sabe um dia tu me visites. Quem sabe um dia te recordes

- Afonso... o que costumava resolver comigo o jogo das diferenças da penúltima página do jornal!

e resolvas passar cá por casa

(continua tudo mais ou menos igual, com a diferença de que agora fechei a varanda e mandei fazer uma marquise)

fechar a varanda e fazer a marquise, duzentos e vinte e cinco mil escudos

e repares logo de entrada

- Este tem uma marquise enquanto que aquele tinha uma varanda

e passemos a tarde a resolver o jogo das diferenças da penúltima página do jornal.

Se não vieres, não fico chateado

a sério que não fico chateado.

Não é como se dependesse de ti. Sou uma pessoa ocupada, sabes como é, o trabalho, os horários. Hoje é que é domingo, e tenho um pouco mais de tempo. Se calhar fico por casa, janto pão com manteiga

um papo-seco, vinte escudos

e como, de sobremesa, aqueles chocolates que tu gostas

- Sem mariquices

chocolates, mil e duzentos escudos

Quem sabe abra o jornal na penúltima página e tente resolver o jogo das diferenças

jornal, noventa e cinco escudos

É claro que sem ti é difícil

(sem ti tudo é difícil)

Provavelmente só conseguirei encontrar as diferenças mais óbvias, mais estúpidas, mais gritantes

- Este tinha um sorriso, enquanto que este está triste

Não há mais diferenças.